Terror em Whitechapel

Existe um gênero de jogos que exploram literatura ao extremo. Nestes jogos, o leitor é constantemente questionado acerca das ações que o protagonista tomará. Não cabe ao autor determinar se o protagonista vai encarar o dragão de frente, ou se ele deve permanecer escondido, esperando um momento mais propício; quem decide isso é o leitor. Esse gênero é conhecido como ficção interativa.

O suprassumo da ficção interativa são jogos como Blue Lacuna, onde o jogador digita uma frase simples, e o jogo interpreta a ação. Orações como “abrir a porta” e “cumprimentar o comandante” são entendidas pelo jogo, que atualiza a simulação do mundo de acordo.

Tanta interatividade só é viável com um computador; Blue Lacuna é simplesmente impossível de ser impresso, e distribuído num livro físico. No papel, o que acontece é algo diferente, popularizado por livros como a série Sorcery!, onde a história é dividida em trechos numerados. Ao terminar cada trecho, o autor apresenta várias opções, e o leitor segue para o trecho indicado. O exemplo do dragão seria algo assim:

A criatura abre os olhos, revelando uma pupila flamejante. Com um urro, ela gira o seu imenso corpanzil e põe-se de pé com uma graça que faria o mais hábil dançarino abaixar a cabeça em sinal de respeito.

Se quiser atacar o dragão, vá para 35.

Caso prefira aguardar mais um pouco, vá para 12.

Eu já li muitas histórias assim. Mas muitas mesmo. A primeira foi Didina Jones: Em Busca do Ioiô Sagrado. Escrita por Marcelo Cassaro, era uma história apresentada em quadrinhos, em vez do tradicional texto. O tal Didiana Jones nada mais era que o Didi, dos Trapalhões, misturado com o famoso arqueólogo do cinema, Indiana Jones. Só essa, eu perdi as contas de quantas vezes reli.

Uma outra que também adoro é Terror em Whitechapel. Publicada na saudosa Dragão Brasil, em seu número 23, esta história foi escrita por Carlos Orsi Martinho, e contava a história de um sir que se vê às voltas com horrores cósmicos quando seu único amigo pede-lhe ajuda. E não bastasse eu adorar esta uma aventura-solo (como a DB chamava), mas esse foi também o meu primeiro contato com o horror cósmico de H. P. Lovecraft, que hoje é o meu autor favorito do gênero. Ninguém escreve histórias tão perturbadoras quanto Lovecraft.

Recentemente, fiquei com vontade de botar minhas habilidades de programação em prática, e decidi criar uma história interativa. Ao estudar as tecnologias, decidi que adaptaria uma aventura-solo da DB, a fim de aprender mais. A escolhida foi (claro) Terror em Whitechapel. Depois de pronto, fiquei com pena ao perceber que uma história tão boa estava relegada a uma edição de uma revista obscura que perdeu-se no tempo. Entrei em contato com o Carlos Orsi, e ele gentilmente me autorizou a manter a adaptação no ar. Então…

Se decidir experimentar a tal Terror em Whitechapel, vá para 6.

Se preferir saber mais pouco sobre a tecnologia que utilizei, vá para 35.

Se leituras longas não são o seu forte, vá para 12.

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